terça-feira, fevereiro 28, 2006

Sem explicação

O texto a seguir foi escrito em abril de 2004. Achei que se encaixava, novamente, porém em partes, no momento pessoal que estou vivendo... e que muitas pessoas, se não todas, passam ou já passaram alguma vez na vida. E aí está.

Sem explicação.

Amar, amar, amar...amamos sem saber o porquê, amamos simplesmente por amar. Amamos o fim de semana, o domingo ensolarado. Amamos chocolate e também sorvete de chocolate. Amamos quando chove no inverno e estamos no sofá enrolados num edredom assistindo um bom filme. Amamos ver um beija-flor namorando no jardim. Amamos o “muito obrigado”, o “até logo” seguido de um abraço (ou de um beijo). Amamos nossos amigos verdadeiros e as vezes os amigos de nossos amigos também.

Até aí, amamos sem saber ou ao menos sem nos importar com porquês. Amamos simplesmente por amar. Gostamos de chocolate e pronto. Nos maravilhamos com o espetáculo do nascer e do pôr do sol e pronto. Ninguém se preocupa em buscar explicações para isso. No máximo, enumera-se uma série de predicados para tentar explicar, se necessário, esses amores. Ama-se, por exemplo, um amigo porque ele entende, partilha momentos, brinca e até briga conosco se preciso for. E está tudo resolvido, afinal ele é amigo, gostamos dele assim e pronto.

Mas a partir do momento em que passamos a amar de “outra maneira”, amar no sentido mais sexual da palavra, parece surgir a necessidade de explicar alguma coisa para nós mesmos. E assim, na hora em que aquele sujeito a sua frente afirma amá-la apenas como amiga, tudo muda. Parece ser o fim de tudo, o fim do mundo.

A razão pela qual você o deseja de corpo e alma, e ele deseja a você apenas o bem, torna-se sua mais urgente busca. O porquê desse desencontro de sentimentos ganha prioridade máxima na lista de questões pendentes.

Exteriormente, pode disfarçar um sorriso, dizer que está tudo bem, mas sabe que seu interior profundo está fechado, temporariamente, para reformas. O mundo a sua volta perde importância, o olhar busca alguma pista no infinito e a mente divaga entre passado, hipóteses, presente e imagina o futuro.

E a busca do porquê ocorre como em dia de faxina: esvazia os armários, revira as gavetas da memória. Retira o pó de cada livro da estante e folheia-os, tomando o cuidado para as lágrimas não destruírem, cada página que ele ajudou a escrever. Revive os momentos felizes, nas velhas fotos. Re-lê as cartas, os bilhetes, os velhos e-mails, os cartões de natal, aniversário... encontra paz, mergulha no seu mundo sentimental.

Avalia tudo que está à sua frente e põe no lixo as mesquinharias, as falsidades, as tristezas. Guarda tudo que faz bem, reconstrói seu eu, evolui como pessoa. Agora é mais forte, sobreviveu ao terremoto chamado amor. E ainda descobre que é amada.

Talvez não da maneira que gostaria, mas é amada. Possuí um amor de amigo. Um amigo a ama como amiga e isso é melhor que nada, é melhor que a indiferença de tantas outras relações.

Escreve, por fim, mais uma parte do livro da história de sua vida, aquela que diz: ama-se sem saber o porquê, o amor é realmente inexplicável. E entende que sentimentos são feitos para sentir, não para explicar através de meios racionais. Se amo por amar, amo por amar e ponto final.

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